Quinta-feira, Maio 28, 2009

Hoje contactei com a morte pela primeira vez.


Não sabia o que era morrer alguém, não sabia o que se sentia quando alguém que amamos parte.


Eu que raramente choro e que reprimo sempre o que sinto, senti toda a dor, toda a mágoa, em toda a sua plenitude, com toda a sua força.


Uma torrente de lágrimas que nos aflora aos olhos e nos escorre pelas faces queimando-as e deixando sulcos profundos. Os olhos e os lábios inchados de já não poderem chorar mais, a garganta seca de não sair nenhum som.


Um vazio que nos preenche a alma, um sentimento de revolta, de negação, de impotência. O sentir que poderíamos fazer mais, que havia algo mais que poderíamos fazer, mostrar, dar, sentir.


Tanto que ficou por fazer.

Tanto que ficou por dizer.

Tanto…

Tanto…


Saber o diagnóstico – tumor de Klatskin , 7 cm.


Ver um ente querido, cheio de vida, de energia, de vitalidade, de força, a entrar num declínio progressivo e rápido.


Ver a pele e olhos a ficarem da cor das minhas calças amarelas, a entrar no hospital e a ficar numa cama, a mal ter forças para ir à casa de banho.


A não conseguir comer, a rejeitar tudo o que engole, a emagrecer, a ser entubado para drenar conteúdo gástrico.

Verde.

Biliar.


A não ter forças para andar.


A ter que usar fralda.


A não ter forças para se sentar na cama e passar os dias deitado.


Tocar e sentir apenas ossos.


A ser algaliado.


A necessitar de oxigénio.

A necessitar de nebulização.


A permanecer no hospital 1 mês e 12 dias.


Dizer “Adeus, até amanhã” e vê-lo a sorrir, abanar com a cabeça e dizer “até amanhã”.

Saber que dali a 2 horas faleceu rodeado de quem amava.


Saber que já não há amanhã.


Saber que já não há amanhã…



Saber que já não há amanhã…