Hoje contactei com a morte pela primeira vez.
Não sabia o que era morrer alguém, não sabia o que se sentia quando alguém que amamos parte.
Eu que raramente choro e que reprimo sempre o que sinto, senti toda a dor, toda a mágoa, em toda a sua plenitude, com toda a sua força.
Uma torrente de lágrimas que nos aflora aos olhos e nos escorre pelas faces queimando-as e deixando sulcos profundos. Os olhos e os lábios inchados de já não poderem chorar mais, a garganta seca de não sair nenhum som.
Um vazio que nos preenche a alma, um sentimento de revolta, de negação, de impotência. O sentir que poderíamos fazer mais, que havia algo mais que poderíamos fazer, mostrar, dar, sentir.
Tanto que ficou por fazer.
Tanto que ficou por dizer.
Tanto…
Tanto…
Saber o diagnóstico – tumor de Klatskin , 7 cm.
Ver um ente querido, cheio de vida, de energia, de vitalidade, de força, a entrar num declínio progressivo e rápido.
Ver a pele e olhos a ficarem da cor das minhas calças amarelas, a entrar no hospital e a ficar numa cama, a mal ter forças para ir à casa de banho.
A não conseguir comer, a rejeitar tudo o que engole, a emagrecer, a ser entubado para drenar conteúdo gástrico.
Verde.
Biliar.
A não ter forças para andar.
A ter que usar fralda.
A não ter forças para se sentar na cama e passar os dias deitado.
Tocar e sentir apenas ossos.
A ser algaliado.
A necessitar de oxigénio.
A necessitar de nebulização.
A permanecer no hospital 1 mês e 12 dias.
Dizer “Adeus, até amanhã” e vê-lo a sorrir, abanar com a cabeça e dizer “até amanhã”.
Saber que dali a 2 horas faleceu rodeado de quem amava.
Saber que já não há amanhã.
Saber que já não há amanhã…
Saber que já não há amanhã…

